terça-feira, 14 de junho de 2011

Todas as Cores do Preconceito

No carro estavam três garotas e um rapaz, que dirigia. A conversa animava aquele momento e entre vários assuntos comentados, chegou, é claro, o momento de comentar a vida alheia. Falou-se sobre duas garotas que teriam ficado. Até aí, sem surpresas. Mas a reação das duas meninas no carro, ao menos para mim, foi uma grande surpresa. Comentários pejorativos e até manifestando asco da situação surgiram e foram se somando a ironias, como a ideia de parar o carro e voltar, para nem ter contato com tais pessoas. Ou a de parar de frequentar o ambiente comum a uma delas, já que aparentemente o comportamento diferente do heterossexual estaria se tornando tendência por ele.

Acredite: A cena ocorreu no século XXI, este ano. O grupo que conversava era formado apenas por universitários, todos maiores de idade e já tendo razoável "experiência de vida". Mas a mentalidade parecia ter parado em um tempo diferente do contemporâneo, talvez até anterior ao nascimento de todos os indivíduos presentes no carro. Soube porque estava lá. Opus-me a muito do que foi dito. Até que uma das garotas tenta retrucar, afirmando que eu "gostava" do que as meninas haviam feito, partindo do princípio de que só alguma adepta poderia considerar aquilo normal ou digno de aceitação e respeito.



Respondi que não via problema em saber que pessoas tinham preferências diferentes das minhas. Uma das meninas disse então que ela também não via problema em quem havia decidido relacionar-se com alguém do sexo oposto ou de seu próprio, mas que não se conformava com pessoas que ficavam com ambos (bissexuais) e que "não se decidiam".



A discussão não tinha mesmo muitas razões para continuar. Mas é impressionante o fato de pessoas que se dizem "moradores de cidade grande" (quando a mesma tem pouco mais de 300 mil habitantes) manifestarem esse tipo de preconceito. E ainda: uma dessas pessoas teoricamente conviveu muito com o preconceito, devido a uma de suas características físicas (algo que a mim decididamente não importa, mas que já vi ser pretexto para discriminação e brincadeiras de mau gosto: a cor da pele).

Não quero ser intolerante com essas pessoas também, só por sua forma de pensar. Assim como devo aceitar as diferenças, é preciso aceitar opiniões diferentes das minhas. O fato é que qualquer tipo de preconceito traz mais problemas à humanidade, já saturada de conflitos. E por falta de respostas minhas, deixo a conclusão do texto para alguém mais inteligente e habilitado:

2 comentários:

  1. Olá Elisa, minha intenção aqui não é a de defender ninguém, pois não é preciso. Apenas gostaria de levantar uma questão. Será que todos os comentários foram pejorativos? Não acredito nisso. Estavas entre pessoas que realmente se sentiram à vontade em tua companhia, assim, conversaram sobre suas curiosidades e dúvidas; sobre como aquilo lhes era diferente. Não é preconceito reconhecer o diferente, relatar isso. Era um momento de descontração; percebo que era TEU momento de tensão. Não lembro tudo o que foi conversado, mas vejo exageros no teu texto. Cuidado, não se deve discriminar as pessoas pelas suas opiniões. Não é preconceito dizer que "nunca faria sexo com alguém do mesmo sexo", é apenas uma constatação. É algo íntimo. Estavas entre amigas que se sentiram à vontade o suficiente para dizer que nunca manteriam relação sexual com alguém do mesmo sexo e que várias vezes repetiram que "nao entendiam" como pode acontecer isso. Não estavam com um megafone, estavam entre amigos (ou parecia que estavam). Não é maldade reconhecer que algo É DIFERENTE! O diferente não é ruim, é apenas diferente. Boaventura disse: "Temos o direito de sermos iguais quando a diferença nos inferioriza e temos o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza".
    Espero que entendas o meu ponto de vista e espero que reconheças que é normal comentar o diferente, aquilo que não entendemos.
    É sinal de maturidade e bom-senso compreender que muito do que as pessoas comentam é receio e incompreensão, não "maldade".
    Cuidado com a visão maquiavélica do mundo. Nem tudo é bem ou mal, nem aquilo que vive dentro de nós.
    Um abraço,
    Gabriel

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  2. É, Gabriel, você não deve se lembrar mesmo do que foi dito. Foram coisas que me impressionaram bastante, mas não vi com tanta "maldade" quanto você sugere. Aliás, o preconceito nada mais é que uma ideia equivocada sobre algo que não se conhece. Não parte de pessoas "ruins" ou mal intencionadas. Tens razão, não é preciso defender ninguém, até porque o texto se refere à atitude e não a pessoas. Não pus os nomes, nem quis dizer em que situação estávamos, para onde íamos, até para manter alguma privacidade dessas pessoas. Além disso, EU NÃO FALARIA ABERTAMENTE SOBRE PESSOAS AQUI SEM O CONSENTIMENTO DAS MESMAS. E acredite, foi preciso avisar ao menos uma das pessoas envolvidas na situação para que eu ficasse com a consciência tranquila ao postar isso. E não, eu não tenho visão maquiavélica de mundo, nem pretendo discriminar quem pensa de forma diferente, como eu disse ao fim do texto. Se a vida tem algum objetivo, ele é aprender, tanto a conviver como a compreender o que nos parece estranho ou incoerente (como idéias diferentes das nossas). Concordo que "nem tudo é bem e mal dentro de nós", até porque somos um conjunto de emoções e pensamentos, tanto "positivos" quanto "negativos". Também por isso o texto não fala em caráter e sim em uma atitude específica.

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