quinta-feira, 18 de maio de 2023

POR QUE PRECISAMOS DE VAGAS DE INTERNAÇÃO PSIQUIÁTRICA?

Preciso fazer um relato. Vou trocar o nome do paciente para que ele não seja exposto.

João era um rapaz de pouco mais de vinte anos. Chegou emagrecido, desconfiado, com muito medo do que só ele via e ouvia. A família demonstrava muito interesse em seu bem estar, estava sempre disposta a conversar sobre ele, querendo saber como ele estava e o que poderia fazer para que ficasse ainda melhor.

Ele foi avaliado pela equipe da nutrição, iniciou o uso de bloqueadores dopaminérgicos. Não se adaptou ao primeiro devido aos efeitos colaterais, portanto iniciou o uso de outra medicação. Aos poucos, com o ajuste de dose e o efeito do medicamento, começou a ficar mais comunicativo e menos assustado. Conseguiu ganhar o hábito de se alimentar sempre nos mesmos horários, tomar banho todos os dias, uso regularmente a medicação. Ganhou peso, eliminou a sensação de estar sendo sempre ameaçado de morte e ter necessidade de se esconder. As vozes e vultos que o atormentavam desapareceram. Ele teve a oportunidade de ocupar a mente com outros assuntos, passou a prestar mais atenção no mundo que as outras pessoas também viam, ouviam e sentiam.

Ficou em torno de dois meses sendo acompanhado por mim e pelo restante da equipe. Recebeu alta. Eu não vou conseguir expressar a alegria que temos quando um paciente se recupera e recebe alta, mas há algo que supera essa alegria: reencontrar o paciente tempos depois e ver que ele continua bem.

João me deu essa oportunidade! Diria que o momento mais gratificante naquele ambulatório, naquele ano,  foi atender o João após seu internamento. Ele estava bem e pela primeira vez iria participar de uma viagem em família: ele iria à praia no final do ano. Estava recuperado, novamente integrado ao seio familiar, com a promessa de novas experiências e conquitas.

Há critérios definidos para o internamento. Entende-se que situações de emergência, sem possibilidade de resolução fora do internamento, culminem em internações. Se alguém se encontra em situação de urgência ou emergência, seus acompanhantes não hesitarão em procurar atendimento, ainda que o indivíduo não perceba a gravidade de seu quadro e não deseje ser atendido. Quem se recusaria a levar um familiar ao pronto atendimento se estivesse tendo um acidente vascular cerebral ou um infarto caso a pessoa alegasse que não desejaria ficar internada? Haveria possibilidade de reparar danos após o internamento, entender-se com a pessoa, mas não haveria essa possibilidade caso ela falecesse pela falta de atendimento. A internação psiquiátrica pode ser entendida sob essa perspectiva: necessidade de intervenção para evitar maiores danos.

Reféns de quadros como esquizofrenia ou transtornos de humor, ou ainda da dependência química encontram na internação hospitalar o último recurso: a internação se torna a oportunidade de salvar sua vida, recuperar a saúde, interromper a via crúcis que os levaria à falência, à morte ou a atitudes violentas que fariam estragos irreversíveis. É uma pausa necessária para pensar no que os fez chegar àquela situação e no que pode ser feito para resolvê-la. É um modo de desacelerar, conhecer a si mesmo sem efeito de substâncias psicoativas ou sintomas psicóticos. É o momento de receber cuidados e orientações. Receber visitas e ligações dos familiares. É uma oportunidade de despertar e iniciar uma nova vida.

Não cabe a nós decidir que famílias e cuidadores devam arcar sozinhos com a responsabilidade de conter pacientes em surto com comportamentos violentos, que tragam riscos para o indivíduo ou para outras pessoas, bem como situações de evasão, andando “a esmo” ou de dano ao patrimônio. Lembrando o princípio da universalidade, não se pode abandonar pacientes e famílias nessas situações. E garanto a vocês que todos nós desejamos que esses pacientes não precisem ser internados novamente, que há uma torcida enorme para se libertem do sofrimento.

Não seria razoável supor que poderíamos reduzir a quantidade de leitos para emergências cardiológicas pelo fato de promovermos maior assistência ambulatorial em cardiologia, por exemplo: entende-se que as emergências podem ocorrer, ainda que haja assistência ambulatorial. Do mesmo modo, não há como assegurar que internações psiquiátricas não serão necessárias pelo fato de conseguirmos aumentar a assistência ambulatorial.

Quanto aos pacientes, há uma dificuldade de inserção e permanência no mercado de trabalho, nas instituições de ensino. E mesmo aqueles que está inseridos podem ter receio em relatar um internamento psiquiátrico devido ao preconceito. Essas fatores podem aumentar a invisibilidade da população que necessita ou já necessitou passar por uma internação.

Mas talvez eu não tenha mais relatos como o do João para contar, pois o desfecho de muitos outros pacientes que necessitem ser internados seja diferente: há o risco de diminuir as vagas de internamento, desamparando os pacientes e seus familiares. Cabe a nós dialogar com a sociedade, romper o silêncio que perpetra “bichos-de-sete-cabeças”. Divulgação científica, divulgação do trabalho que fazemos, respeitando a privacidade dos pacientes. É importante que os hospitais psiquiátricos sejam entendidos e lembrados como instituições de cuidado e preservação da vida, como os demais serviços de saúde. E que assim como João, possamos todos nos comunicar melhor e nos libertar de nossos fantasmas, entendendo que o presente e o futuro não precisam se parecer com o passado.

domingo, 27 de outubro de 2019

Pós-termo

Havia escrito este texto para a formatura, há quase dois anos, mas ele não foi lido naquela ocasião. Agora, quase ao fim da residencia, creio que seja um bom momento para que seja lido. 



Fez-se o parto

Foi em 2012, ano em que alguns disseram que o mundo iria acabar, que tudo isso começou. Éramos calouros decorando nomes de estruturas do corpo humano e dos quase 50 colegas de classe. Cada um com seu sotaque, biografia e “motivos pelos quais escolheu o curso”. Posteriormente, toda a energia virginal de primeiro ano de faculdade precisou ser redescoberta, quando o que antes era novidade se tornou rotina. Vieram as disciplinas clínicas e cirúrgicas, que integravam os conhecimentos básicos às demandas dos futuros pacientes, aumentando a percepção de que estávamos começando a ser médicos.

Noites em claro, abdicação de programas muito mais divertidos do que confrontar textos densos e a inexorável certeza de que o tempo é uma questão de prioridades. Saudades dos amigos, dos livros sem conteúdos direcionados ao curso, das preferências ignoradas para o cumprimento de obrigações acadêmicas. Houve dias em que nos arrastávamos, cheios de sono e questionamentos sobre a importância de determinadas aulas e atividades. Atritos da convivência exacerbados pela tensão de semanas de provas e trabalhos. Apreensão de que o estudo fosse insuficiente para os desafios da vida profissional. Era cedo para reclamar e tarde para desistir.

Surgiu o internato: momento de praticar o que aprendemos durante quatro anos e desenvolver habilidades técnicas e emocionais. Privilegiados por aprender com os livros e seres humanos, não estávamos mais limitados às provas teóricas, assinalando uma alternativa correta: precisávamos desenvolver nossas próprias estratégias e despertar a confiança e a satisfação dos pacientes. O que a faculdade não homogeneizou em quatro anos, e estava latente em cada estudante, pode ganhar força e compor o estilo profissional que há de caracterizar cada um de nós.

Exercitamos a comunicação de más notícias, vimos os limites da área médica e o quanto precisamos evoluir. Doenças graves nos ensinaram a minimizar nossos problemas e tentar valorizar mais os aspectos da vida, dos quais só temos consciência ao ver que alguém é privado de algum deles. Amadurecemos com isso.  

Nos percebemos como futuros trabalhadores de um setor que recebe menos investimentos do que deveria e que lida com a dor, o medo e a fragilidade do ser humano. Condutores dos recém-chegados a este mundo, separando-os do paraíso uterino. Entusiastas do progresso da ciência, da cura e do alívio do sofrimento. O fim da jornada se aproximava a passos lentos, mas irreversíveis: em breve seríamos médicos. Passamos a almejar e temer o fim do curso, pelas responsabilidades que se seguiriam.

Engana-se quem pensa que deixamos de viver nesses seis anos: Fomos privilegiados por assistir partos, captações de órgãos, transplantes e o início de uma vida mais feliz ou mais longa depois de uma intervenção. Aprendemos as particularidades orgânicas de todas as fases da vida. Aprendemos com os pacientes e suas histórias e nos sentimos úteis em momentos decisivos. Tocamos o início da vida com as pontas dos dedos na obstetrícia, e vimos escoar das palmas das mãos nas manobras de ressuscitação na sala de emergência. 

A medicina é uma área tão generosa que lida com constantes inovações e proporciona o acolhimento de todas as pessoas, sem julgamento ou estabelecimento de uma sentença. Lidamos com o que é comum a todo ser humano, independente de sua classe social, orientação sexual, gênero, país de origem, etnia ou nível de instrução. Uma profissão que nos permite conhecer o mundo realizando trabalhos sociais, sem fronteiras. Que vai dos grandes centros de pesquisa e centros cirúrgicos às periferias e campos de refugiados. Nos permite adequar o próprio perfil a uma das várias especialidades existentes, todas diferentes e igualmente importantes.

Que possamos todos nos realizar e nos encontrar fazendo o que considerarmos relevante. Que tenhamos boas histórias para contar. Paramentados como profissionais, nos despindo de qualquer paradigma ou preconceito: judeus, homossexuais, cadeirantes, pais e mães jovens: somos todos seres humanos. Seres humanos, frágeis e capazes de errar. Capazes também de transpor barreiras e fazer o inimaginável se tornar realidade. Concluídos seis anos de uma gestação de intercorrências e boas surpresas, fez-se o parto dos profissionais. Estaremos sempre ligados aos colegas e professores por tudo o que vivemos. E que possamos sempre nos respeitar e guardar o melhor uns dos outros, pois tudo isso há de se resumir a saudades.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Tropeços do gigante

Há quase dez anos, em uma aula de história, o saudoso professor Neotti comentou que brasileiros brigavam entre si por futebol, quando poderiam brigar por política. Eu diria que isso está começando a acontecer.
Pouco mais de vinte anos atrás, o presidente Collor sofreu impeachment e os brasileiros precisaram dar novas chances às eleições. Em nosso país, voto direto é relativamente recente e ainda estamos amadurecendo em relação ao seu poder e às suas consequências. Estamos aprendendo a escolher representantes, a nos atentar a denúncias e a decifrar as estratégias de propaganda empregadas pelos candidatos.

Quanto ao saber votar ou não... Afinal, quem sabe votar? O que define o saber votar ou não? Grau de escolaridade? Conhecimento sobre leis, direitos e deveres? Vivências nos períodos de gestões anteriores? Pergunto-me se há alguém que se sente plenamente confiante no momento de selecionar um indivíduo, com o qual o único contato são as propagandas (muito bem planejadas, incluindo crianças cantando, discursos ensaiados e todos os recursos possíveis para persuadir o eleitor) para administrar valores financeiros altíssimos, fazer concessões e contratos, traçar novos caminhos para a nação. Nação em que muitos anos serão vividos, sonhos serão batalhados e descendentes serão deixados. Consequências de uma administração de quatro anos podem ser eternas.  Será que entregaríamos nosso próprio salário ou nossa casa nas mãos de alguém que conhecêssemos tão pouco e de forma tão artificial? Por que, apesar de toda a desconfiança que a convivência em sociedade desperta, nos permitirmos confiar tão facilmente em personagens criados pelos partidos?

Personagens que muitas vezes não têm nada muito bom a oferecer, somente os consideramos uma alternativa “menos ruim” em relação ao seu oponente. E muitas de nossas convicções são estruturadas em notícias tendenciosas e no desconhecimento quanto a vários assuntos. Eu, como estudante da área da saúde, percebo o quanto ainda precisaria aprender para poder exercer minha profissão. Além disso, não tenho experiência em gestão, portanto não me sentiria segura em opinar sobre investimentos, mesmo na área da saúde. Então, o que dizer sobre economia, na qual não tenho nem parte de uma formação acadêmica? Vou confiar nas análises apresentada em jornais e revistas? Se há divergências até entre meus professores da área médica, apesar de tantos artigos publicados, diretrizes e evidências, como não haveriam entre especialistas da economia, quanto a situações atuais, anteriores e até previsões para os próximos anos? O mesmo se aplica à educação, infra-estrutura, segurança pública e tantos outros setores a serem trabalhados pelos governantes.

Ademais, não tenho experiência no exercício de um cargo político. Não sei o que é lidar com a pressão da imprensa ou de apelos populares, conter greves ou negociar com colegas parlamentares. Como posso criticar a atuação de um parlamentar? Posso me pautar em leis e no pouco de informações que chegaram a mim quanto aos seus direitos e deveres. Porém, tudo isso é ínfimo diante de tudo o que compõe a realidade política. Somos todos passíveis de manipulação? Acredito que sim.

Creio que seja muita presunção afirmar que outra pessoa “não sabe votar” só porque seu posicionamento nas urnas foi diferente do meu. Não julgo o medo de perder benefícios adquiridos, pois qualquer um teria medo de perder aquilo que melhorou sua qualidade de vida. Também não critico a rejeição de quem discordou de medidas do governo, especialmente aquelas relacionadas à sua atuação profissional. Todos têm o direito de escolher o que parecer melhor para si. Porém, ao “votar por conveniência”, é incoerente condenar quem também “vota por conveniência”, mas prefere outro candidato.

Apesar de tantos questionamentos, sinto-me otimista. Como disse no começo do texto, os brasileiros estão mais interessados em política. Para mim, o "gigante acordou" sim, mesmo que tenha preferido ficar em casa por medo do confronto com a polícia, ou do encontro com manifestantes mais "enérgicos". Ele só está um pouco sonolento e começando a processar a realidade ao seu redor. É ainda muito inexperiente para tomar suas decisões de forma mais sábia e dará alguns tropeços até estabelecer um rumo mais esclarecido e confiante. Mas está desperto, disposto e barulhento, como um bebê que acaba de acordar.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

"A arte da conversa", por Doug Savage.

Quanto tempo!?

Pois é. Eis que me deparo com quadrinhos super criativos da série "Art of Talk", do Savage Chickens, do cartunista Doug Savage.


Recomendo os outros itens da série e uma exploração mais aprofundada do site. 

Obrigada pela atenção! Boa semana!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Aos mestres

Educa..dor! Sim, não poderia haver sufixo melhor para o cargo, no momento em que vivemos. Faltam salários decentes, planos de carreira, incentivos e o devido reconhecimento aos profissionais da educação. Muitas vezes, há incompreensão e descaso por parte de alunos e pais desses alunos. O professor fica desamparado, sem apoio da diretoria e de políticas mais justas.


Ainda assim, os mestres não desistem e continuam a desenvolver soluções para os problemas do cotidiano.


Permanecem inventivos, fascinados pelo conhecimento e por novas maneiras de transmiti-lo aos seus discípulos. Mesmo que poucos estejam interessados ou demonstrem fé no conteúdo explanado e em sua existência no mundo em que vivem. 

Nem sempre é fácil crer nos ciclos, moléculas, histórias, reações e movimentos de partículas ou corpos extensos. O aluno pode apresentar certo ceticismo, como provavelmente os mestres um dia fizeram. Passado o período de "catequização" do aluno, é preciso encontrar meios de fazê-lo assimilar e memorizar o conteúdo. Aí entram os inesquecíveis macetes, exemplos e brincadeiras, que deixam o conteúdo mais atraente, divertido, simples e crível. Os mais habilidosos nessa arte são recrutados para missões altamente complexas, como integrar equipes de regate em cursinhos e heroicamente fazerem você atravessar as barreiras dos vestibulares.


Há os motivadores, que despertam nos alunos a autoconfiança e a coragem de batalhar por seus sonhos. Alguns até os ensinam a escrever o próprio destino, incorporando uma nova temática às suas vidas.


Outros são capazes de  mudar o rumo de uma nação e inspirar jovens de origens e dificuldades semelhantes, em todo o mundo, a conseguirem a própria ascensão. 








Os docentes, além de bons palestrantes (e um pouco artistas), devem ficar atentos às características e necessidades de seu público. Notar diferenças e construir novas abordagens, para alunos mais "niilistas", disléxicos ou excepcionais. É preciso paciência e sensibilidade... inclusive para de vez em quando fugir um pouco do assunto da aula e falar sobre o que os alunos querem ouvir.


Mas muito já foi dito, acabou-se o nosso intervalo. É hora de deixar o mestre aproveitar o pouco tempo livre do qual dispõe e cuidar de seus afazeres. Feliz dia do professor!

domingo, 14 de outubro de 2012

Carpinteiros do Universo

Tanto a se fazer e viver.. 

Tanto a ser dito, divulgado, denunciado... Votado, vetado, extirpado.
Mundo carente de consertos, ajuda, disposição para fazer o que qualquer um poderia, mas poucos fazem. Coragem de enfrentar o sistema e os que nele se estabeleceram e recusam-se a sair, dando a outros a oportunidade de tentar fazer melhor. Pensar em tudo o que deveria ser mudado (e no quão extenuante seria causar essas mudanças) traz um desânimo..


Complicado abandonar a rotina e a zona de conforto. Há sempre o medo da sobrecarga e do não cumprimento de obrigações estabelecidas... Vem daí a fuga da formação de vínculos com grupos de pessoas que, às vezes, têm as mesmas vontades e ideais que você. 

Ajudar requer esforço, tempo, tolerância. Leva à frustração com uma sociedade muitas vezes despreocupada, egoísta e insensível quanto às questões que para você não devem ser ignoradas. Surge a decepção com outros seres humanos que contribuem com o aumento do problema, abandonando e maltratando animais, jogando lixo em locais inadequados, violentando mulheres e crianças ou agindo de qualquer modo que piore o que seu projeto tenta combater. Há o estresse de conviver com problemas, além daqueles já existentes em sua moradia ou atividade profissional. Há também os desafios da convivência com seus colegas de projeto e divergências de opiniões.

O dinheiro talvez não compre a felicidade, mas é fundamental para suprir as necessidades das instituições. Na maioria dos casos, é preciso dinheiro para sustentar a própria gentileza e a solidariedade aos demais. O dinheiro compra (e aluga) espaço, funcionários, energia elétrica, água.. e tudo o que um abrigo (clínica, escola ou qualquer projeto social) exige. Na falta dele, vêm os pedidos de doações, nem sempre bem recebidos/compreendidos pelo público. 

Mas nem tudo está perdido! Se você deseja contribuir com um mundo melhor, sem "levá-lo nas costas", pode tomar atitudes simples e bastante relevantes:

Doe sangue e cadastre-se como doador(a) de medula óssea. Há baixíssima possibilidade de compatibilidade entre pessoas de diferentes famílias.. portanto, se for descoberta compatibilidade entre você e alguém à espera da doação, não recuse o procedimento: submeta-se e ajude. Dificilmente outra pessoa poderá substitui-lo(a) nessa situação.




Ajude instituições, principalmente as menores, aí de sua cidade. Se preferir não doar dinheiro diretamente, forneça materiais (alimentos, produtos de limpeza e higiene pessoal, roupas, etc). Incentive aqueles que têm coragem e disposição para aquilo que deveríamos fazer. Vale ressaltar que, sem doações, tempo e trabalho dos voluntários não serão suficientes para manter a atividade do grupo (causando seu fim e o agravamento de problemas sociais e ambientais amenizados pelo projeto).



A culpa das mazelas do mundo pode não ser diretamente nossa. Mas o interesse pelas soluções, a busca por informações e a tomada de atitudes mais conscientes e proativas são deveres de todo cidadão. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A César o que é de César


Na semana em que o texto "Por quem os sinos dobram?" comemora um ano de aniversário, o jornal Zero Hora divulga a perda do cargo e a condenação à prisão do reitor Antonio César Gonçalvez Borges.  










Marcada em laranja, a pessoa que vos fala, há mais ou menos um ano na reitoria ocupada.


Não posso dizer que a ocupação surtiu tanto efeito. Não sei nem se conseguimos chamar muita atenção para a causa. Mas o que foi publicado hoje responde as críticas da época: não estávamos errados.





terça-feira, 22 de maio de 2012

SiCKO Killer


Michael Moore mais uma vez põe o dedo na ferida dos EUA: sai da sala de espera e faz um exame no sistema de saúde do país.  

Na produção indicada ao Oscar de melhor documentário em 2006, ironia e sarcasmo, sem doses homeopáticas, são parte do tratamento dado aos planos de saúde estadunidenses. Os serviços públicos não ficam imunes e são comparadas amostras oriundas do Canadá, da Inglaterra, da França e de Cuba. 

Ao analisar os materiais e fazer o diagnóstico, o protagonista se mostra sensibilizado pela causa das pessoas com quem se depara e incrédulo com as discrepâncias entre sistemas de saúde pública nos  países que visita. Entre os depoimentos coletados está o de um político que receita o voto inteligente, por parte dos mais necessitados, como profilaxia contras as patologias crônicas sociais e administrativas. 



O filme é um convite à reflexão e às mudanças, preferencialmente antes de ficarmos presos à maca e não termos mais forças para remediar a situação.

Música que rendeu o trocadilho do título da postagem acima:
Psycho Killer, da nova iorquina Talking Heads:
http://www.youtube.com/watch?v=l5zFsy9VIdM

terça-feira, 15 de maio de 2012

"A fé que você deposita em você e só."



Enquanto alguns religiosos afirmam a existência de ex-gays (e outras transformações promovidas pela fé) , Fábio Marton define-se como um ex-crente. Seu livro, "Ímpio - O Evangelho de um Ateu", traz memórias de sua vida de crente, no interior de São Paulo e na capital paranaense. 

O jornalista participou do Programa do Jô e sua entrevista foi considerada uma das mais divertidas, segundo usuários do YouTube. 

Entrevista de Fábio Marton no Programa do Jô



Foi assim que a descobri e assisti. Fiquei interessada no livro, que tive a felicidade de encontrar na Feira do Livro, em Joinville.

O autor descreve comportamentos e pensamentos, em vários momentos de seu desenvolvimento, mediados pelo ensino religioso que recebeu. Divagações, dúvidas, dificuldades, surpresas, a paixão por ciências e a descoberta do rock permeiam um relato de busca de por conhecimento e uma verdade capaz de nortear a própria existência. 

O menino Fábio cresceu, tornou-se independente e alcançou a realidade que desejava, sem que para isso tivesse de esperar pela chegada aos céus. A aceitação do mundo como ele é, sem a permanência num universo paralelo por boa parte do tempo, contribuiu para melhorias na vida terrena do paulistano. Se efêmera, ao menos dela se tem certeza e durante muito tempo (na maioria dos casos), não há como dela fugir. Ao abandonar a procura por milagres, Marton pode se desfazer da cruz de paradigmas que carregava e de seu jejum de relacionamentos (afetivos e amorosos). Foi adotada, em palavras do jornalista, "a fé em se tentar algo sem saber aonde aquilo pode levar, que é a coragem".

Sarcasmo e ironia são traços da obra, além das constantes explicações sobre rituais e a criação de certas igrejas, divergências entre seus membros, origens das ramificações e estratégias de "marketing" de pastores. "Basta um cachorro para segurar duzentas ovelhas."



domingo, 29 de abril de 2012

Focando o olhar desviado


"Olhe nos meus Olhos" trata-se de uma oportunidade de perscrutar o mundo a partir da sensibilidade e percepção de um portador da síndrome de Asperger. Frustrações da infância e dificuldades no entendimento de sutilezas (determinantes) no mundo corporativo são descritas por John Elder Robison, que só aos 40 anos foi diagnosticado como Asperger.

Morador de uma pequena cidade estadunidense, o menino John tinha pouca interação com outras crianças, que preferiam não brincar com ele. Os adultos não o consideravam menos estranho e o jovem foi constantemente reprimido por seu comportamento inadequado. A falta de entendimento das questões humanas não se mostrava no relacionamento com as máquinas e as habilidades para consertos e aprimoramentos tornaram-se convites para a prestação de serviços. John foi contratado e reconhecido por seu talento e determinação, ocupando diferentes cargos em ramos distintos.

Crises no âmbito familiar permearam sua adolescência e parte da vida adulta, aliando-se à rejeição de um mundo externo desconhecedor das peculiaridades de pessoas como John. A capacidade de resiliência do autor é notável e o diagnóstico tardio fez com que ele, já mais experiente, pudesse compreender e explicar seu comportamento (além de sensações e pensamentos) em episódios anteriores.
Entrevista recente do autor: (em inglês)
http://www.thetowerlight.com/2012/04/qa-with-author-john-elder-robison/

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Quem espera sempre...



Cansa! A espera é quase uma irmã siamesa do tédio e raras são as situações em que estes componentes do lado negro da força estão desvinculados. A demora instiga a ansiedade, para que ela termine e o que aguardamos resolver chegue logo ao fim. Vem quase sempre acompanhada de incertezas do porvir(incluindo quanto tempo ela há de durar) e se regada ao medo, é desesperadora. Aliás, o medo só existe durante a espera: pelo fim ou pela chegada de um problema. O medo é reflexo de se conhecer a chance do sofrimento surgir ou se perpetuar.



Um banco de reservas é uma boa representação dos sentimentos de espera. Pode-se deduzir pelos lábios mordidos e cenhos contraídos que atleta nenhum prefere estar ali, nem mesmo num momento da partida em que a derrota seja inevitável. Sente-se impotente diante dos erros do time e dos acertos do adversário. Quer melhorar o placar. Os olhares fazem o que o todo o corpo deseja fazer: entrar em campo/quadra. Creio que em cada ocupante dos bancos haja sensação de que algo mais poderia ser feito pela equipe e esse algo poderia vir de si mesmo. Aliada à vitória, a espera acumulada é o combustível para que os jogadores se levantem apressadamente no final de uma partida, correndo ao encontro dos companheiros que participaram ativamente da competição.

A espera é algo tão assustador que filmes de suspense baseiam-se amplamente nesse recurso, com seus enquadramentos de expressões faciais de tensão quanto ao perigo iminente. A cena que causa mais medo ao espectador não é necessariamente aquela em que o assassino aparece armado e começa a atacar a vítima: muitas vezes é aquela em que os "inocentes" tentam fugir e ficam olhando ao redor, prevendo o desfecho daquela perseguição. A espera também ocorrer por pouquíssimo tempo, no intervalo em que o algoz é visto por sua presa. Com opções restritas, ela opta por gritar até o início do contato físico, ou até que gritar ainda lhe seja possível.

Uma imagem digna de capa de CD de banda de rock "agressivo", para mostrar o quanto seus integrantes "conhecem a dor", sendo então roqueiros mais respeitáveis... (tese defendida pelo cantor Lobão, que participando de um programa na TV, afirmou: "quanto mais adereços soturnos e ameaçadores, mais roqueiro você vai aparecer diante do seu meio social.") Se esquecida pelas bandas de metal ou rock progressivo, a "passividade inquietante" foi devidamente reconhecida pelo grupo carioca O Rappa, como um bom nome para um álbum com músicas de caráter reflexivo sobre as mazelas da sociedade: "O silêncio que precede o esporro".



O tema seria igualmente bem aproveitado com as imponentes sentenças "os minutos antes de apresentar seminário", "a véspera divulgação da lista de aprovados no vestibular", "as horas anteriores ao teste de autoescola" e outras frases de conteúdo sádico, possivelmente censuradas pelas gravadoras ou produtoras de filmes de terror para que mentes mais sensíveis pudessem continuar saudáveis.

Infelizmente, o "repouso forçado" não pertence somente aos filmes de Hithcock ou aos intervalos comerciais de programas que tragam alguma notícia (aquela mesmo, que todos querem assistir e que sempre vão passar no próximo bloco, mas só aparecem no fim do programa). A vida nos impõe muitos bancos de reserva: torcida pelo abandono de vagas dos que passaram em concursos (para que existam vagas remanescentes e outros candidatos possam ocupá-las), a chamada para uma conversa séria, o período que passamos sentados à procura avisos para embarque ou desembarque. Ainda que, sabendo da efemeridade da própria existência, o ser humano tente arduamente abreviar a espera e desenvolva as mais variadas tecnologias para apressar o ritmo dos acontecimentos.

Depois de algum tempo, a calmaria deixa entediado até o viajante sobrevivente de tempestades e condições ambientais extenuantes. O desconforto da espera, se não vem da dúvida ou do medo do sofrimento, vem da certeza de que o tempo corre (algemada ao punho ou permeando pensamentos diários) e de que não viveremos para sempre: temos medo de desperdiçar o tempo e pressa para experimentar o que suas frações têm a oferecer.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Escritores do próprio destino

A atriz Hillary Swank, após as atuações em "Menina de Ouro" e "P.S.: Eu te Amo", mais uma vez protagonizou um relato comovente: a história real de uma professora disposta a incentivar os alunos a melhorar a escrita do próprio destino.

A palavra "caligrafia" vem do grego. "Cali" significa bonito(a) e "grafia" é o mesmo que escrita ou registro. Portanto, pode-se dizer que a "grafia" tornou-se "caligrafia", após a intervenção da profissional, que tinha como objetivo fazer seus alunos enxergarem seus dilemas e desejos, enquanto contavam-nos aos demais: cada aluno foi convidado a escrever um diário, cujo conteúdo poderia ser compartilhado.

Num ambiente em que as diferenças étnicas e o preconceito ditavam o comportamento hostil dos alunos, atividades como uma dinâmica em que semelhanças foram apontadas serviram para estabelecer uma relação de respeito (e posteriormente amizade) entre a turma.



A dedicação e o trabalho árduo da educadora apresentaram resultados muito além dos esperados. Os jovens passaram de excluídos a empreendedores (quando arrecadaram dinheiro para um de seus projetos) e administradores de sua vida.

"Escritores da Liberdade" traz uma visão otimista e inspiradora da capacidade que cada indivíduo tem de aliar conhecimento a transformação. Motivador para qualquer educador, não só os profissionais da educação: somos todos educadores, já que nossas atitudes tornam-se exemplos (bons ou ruins) e nossa conduta dita as respostas dos indivíduos que conosco convivem. Indiretamente, interferimos no comportamento alheio.



O judoca Flávio Canto, ao comentar um projeto social no qual trabalha, disse que "passado não é destino". O filme, resumidamente, demonstra o processo que deu o nome à ONG de Flávio Canto: reação.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Olhar desbotado

O filme nacional "Olhos Azuis" traz um olhar nada celeste sobre as barreiras à imigração legal.



Imigrantes latinos são retidos na Alfândega do aeroporto JFK, para que Marshall, chefe do Departamento de Imigração, possa fazer sua "festa de despedida", antes da aposentadoria. O sarcasmo do chefe inicialmente diverte os colegas Sandra e Bob, que disputam o cargo a ser deixado por Marshall.

O brasileiro na alfândega:



Nonato graduou-se em História pela Universidade Federal de Pernambuco e teve dificuldades em se sustentar como professor. Pai da menina Luiza (não aquela que foi ao Canadá), decidiu trabalhar no exterior para conseguir mais dinheiro e enviar para a família no Brasil. Obteve sucesso como empreendedor, fornecendo refeições para trabalhadores noturnos.

Foi ao Brasil visitar sua família e teve surpresas ao passar pela alfândega, ao tentar retornar aos Estados Unidos. Como historiador e imigrante legal, critica a "recepção" norte-americana e as situações pelas quais precisa passar para viver no exterior. Torna-se porta-voz de todos aqueles que buscam uma vida melhor fora do país de origem. Considerações interessantes também são apresentadas por uma bailarina cubana, que vai aos EUA a convite de uma companhia de dança, e pela brasileira Bia, que ajuda Marshall em sua jornada pelo Brasil, determinada por um trágico incidente.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Letrinhas da SOPA

"Old pirates, yes they rob I" ("piratas antigos, sim, roubaram-me"), disse Bob Marley referindo-se aos que lucraram com antigas colônias de exploração (países como a Jamaica, terra natal de Bob). Pois agora, os "piratas" em questão (ou corsários, já que contam com o apoio governamental) desejam proteger a fortuna (financeira e cultural) que construíram e saquear a liberdade de compartilhamento de conteúdo na internet.

A internet é um recurso interessante para que todos tenham acesso à informação de modo rápido e gratuito. Torna inexistentes distâncias intercontinentais e fronteiras, dispensando também aduanas e uma fiscalização mais rigorosa. Não há revistas, nem cota de importações. Um imenso Duty Free livra consumidores não só dos impostos, mas também de taxas de aquisição dos produtos. Estes preenchem a bagagem cultural dos usuários, podem instigar-lhe reflexões e o entendimento da realidade de outras nações: comparações importantes para que tomemos atitude, seja ela a de imitação ou ações para que o demonstrado não se repita onde vivemos. Sensibilização, empatia e ativismo podem partir do material disponibilizado.

Sites de "distribuição" de informações (de todo o tipo, não apenas as "eruditas") são uma ferramenta de mídia em que qualquer pessoa pode atuar: não há a passividade exigida pela televisão, da qual somente recebemos conteúdo. Internautas têm o poder de criticar, elogiar e questionar um material, discuti-lo em fóruns, falar diretamente com o autor da publicação. Qualquer cidadão pode postar um vídeo registrando problemas em sua comunidade, divergências entre a realidade e o discurso de representantes. Todos são livres para falar a um grande público, mostrar sua criatividade, divulgar o que desejarem. Dividir boas experiências... inclusive músicas, seriados e filmes.



Aí estaria o problema: o milagre da multiplicação do material "protegido" por direitos autorais. A propriedade intelectual deixou de ser "propriedade": é distribuída sem restrições. O beneficiado não precisou pagar pelo que recebeu, mas o mesmo não ocorreu com produtores de filmes, músicas, livros e softwares: artistas, editores e todos os envolvidos num processo de criação deixam de receber por parte do que produziram: Livros, CDs e DVDs que seriam comprados são simplesmente obtidos por download. Profissionais envolvidos perdem o dinheiro útil para quitar dívidas de produções anteriores e na realização de novas produções. Sabemos o quanto é difícil viver de arte ou apostar na ideia de um novo produto a ser lançado, como fez Steve Jobs (aquele mesmo, da Apple). É preciso buscar patrocinadores e honrar compromissos, convencer os demais de que aquilo em que se acredita trará resultados positivos, sendo então digno de confiança e investimentos. Ninguém, nem mesmo os criadores, têm a certeza de que a empreitada dará certo. Corajosamente arriscam ao pensar nas possibilidades. Portanto, é justo oferecermos mais que o aplauso e a admiração, pagando pelo serviço prestado.

Apesar de interessante para os produtores como publicidade de um trabalho executado (para que muitos conheçam as obras e passem a acompanhar seus idealizadores), o compartilhamento sem tarifas tem as mesmas conseqüências da pirataria. Assim, autoridades dos Estados Unidos propuseram a SOPA (Stop Online Piracy Act - "Paralisação da pirataria na internet") e o PIPA (Protect IP Act - "Ato de proteção à propriedade intelectual"). As medidas favorecem produtores, mas assolam a liberdade de disseminação de conteúdo na internet. Preveem rigorosas punições aos "Robbin Hoods" da internet, além do fechamento de sites de compartilhamento (como YouTube) e download (Megaupload - já fora do ar - Rapidshare, 4Shared e Pirate Bay). O Google terá restrições e pode ser punido se um site de compartilhamento aparecer como resultado da pesquisa efetuada. Estima-se que 70% dos resultados de busca no Google seriam omitidos.

Entre opositores estão Tim Berners-Lee (inventor do World Wide Web - WWW), Mark Zuckerberg (do Facebook) e os responsáveis por organizações como Twitter, Google, Yahoo!, LinkedIn, Mozilla, Zynga, Wikimedia, Amazon e eBay.

A rede televisiva CBS, a produtora Walt Disney, Universal Music Group, Toshiba e Wal-Mart são favoráveis às medidas. A Eletronic Arts (criadora de jogos como The Sims e Simcity) e Sony retiraram seu apoio após protestos, que também foram suficientes para suspender a votação das propostas.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Animado Natal

"Então é Natal"... E se trocarmos a música? Prefiro o rock às versões em cavaquinho ou a voz da Simone (já gostei, mas ouvi até enjoar).



"Presentes":

Jingle Bell rock, com Skid Row;
http://www.youtube.com/watch?v=hQjINiDA1n0

Santa Claus is comming to town, por Alice Cooper;
http://www.youtube.com/watch?v=In3sApWlY1s

Ramones retratam festinha de Natal;
http://www.youtube.com/watch?v=4Y5GtaTrPHM&feature=related




Para os fãs de música eletrônica: Jingle Bell remixada;
http://www.youtube.com/watch?v=HXyWZq70_CU&feature=related

Jingle Bell por Basshunter.
http://www.youtube.com/watch?v=fEyV_GfRVuw&feature=related

Uma ótima noite a todos! Que o ritual seja cumprido em harmonia e, se possível, com inovações! Troque presentes, abraços, cartões... palavras! Expresse os melhores sentimentos pelos demais. Que a gratidão se faça presente e a árvore de plástico renda bons frutos!

Que tal fazer uma doação e tornar mais feliz o Natal alheio? Doe um comentário na caixa de texto abaixo! Obrigada.

A todos, um feliz e animado Natal!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Hipervergonha



“Xingaria muito no twitter”, mas 140 caracteres seriam poucos para o que quero dizer. Fui hoje ao Big e comprei alguns livros. Alguns deles tinham aquela etiqueta em alto relevo, com um código de barras. Paguei, obviamente. Ao sair, os biombos apitaram. Todos que passavam ali perto pararam o que estavam fazendo e ficaram olhando. Voltei e falei com a moça do caixa. Resposta: “Ah, é assim mesmo, é normal. Acontece às vezes.” Fiquei p***, mas não quis “armar barraco”. Fui embora. Ao sair, passei novamente pelos biombos, que mais uma vez apitaram. Um casal ficou olhando para mim de modo mais “agressivo” que outras pessoas, na primeira vez em que as máquinas apitaram.

Creio que dificilmente alguém furtaria algo e passaria pelos biombos, sabendo que um alarme iria soar. É muito mais fácil passar “do lado”, apesar de ser um caminho menos espaçoso. Ou levantar os braços, para que o produto passe acima dos detectores. Passar pelas máquinas com o produto roubado seria muita falta de “noção”. Além disso, como qualquer equipamento, os detectores poderiam apresentar problemas em seu funcionamento. Mais um motivo para que as pessoas pelo menos disfarçassem quando estivessem me condenando.



Conclusão: quando for ao Big e comprar algo com a etiqueta em alto relevo, exija que ela seja removida no caixa. Um bom argumento? "ah, então eu nem vou pagar: quando eu sair vai apitar de qualquer jeito.. é melhor roubar que comprar."
E se você estiver no mercado e os detectores apitarem para alguém, não fique “encarando” a pessoa: talvez ela não esteja roubando.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sinais de fumaça

Em resposta à tentativa de "compra" da terra ocupada por índios da tribo Suquamish, o chefe Seatle escreveu uma carta ao presidente Franklin Pierce. As palavras do chefe tribal ficaram famosas e a carta, redigida em 1854, foi considerada o primeiro documento ambiental.

Trechos: "... O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém."



Não sei se procede, pois apesar de descendente dos "homens vermelhos", pelos meus hábitos sou considerada "branca". Ainda assim, posso dizer que sinto o cheiro das cinzas que tornam a pele amarelada: cigarro. Sim, os índios eram conhecedores do tabaco, mas este fazia parte de rituais e não era consumido "o tempo todo". Além disso, não era misturado à nicotina e outras substâncias componentes do cigarro. Provavelmente Seatle concordaria que a fumaça em questão faz parte do "mau cheiro" que o homem branco ignora.

Festinhas de fim de ano, viagens em transporte coletivo e a ocupação de áreas “improdutivas” (destinadas especialmente ao ócio) estão por vir e o presente texto não se trata de mais palavras de esperança e nostalgia associadas ao fim do ano: As linhas a seguir trazem palavras contundentes, sem ternura, numa crítica ácida aos “sinais de fumaça”. Portanto, para garantir o bom humor no resto do dia, pare por aqui! Peço desculpas aos que prosseguirem a leitura e se sentirem agredidos, mas veio a mim um impulso de tratar do tema e talvez mais pessoas tenham o mesmo protesto a fazer.

A decisão de iniciar gradativamente a própria cremação, carbonizando principalmente as vias aéreas, cabe a cada um. Mas vale lembrar que não são só familiares e amigos que lamentam as conseqüências: além dos gastos na área da saúde, pagos inclusive com impostos dos não fumantes, aqueles que convivem (ainda que raramente) com a fumaça, o mau hálito e o odor (agravados quando são consumidos os cigarros “pirateados”) são demasiadamente incomodados.

Viagens de ônibus, por muitas horas, não são das mais confortáveis (exceto em leitos). Certamente pioram se o cheiro de quem está próximo for muito forte. Claro, há fedores e fedores, mas trataremos apenas dos de cigarro. Um de marca conhecidíssima, no “sabor” tarja vermelha, é dito até por amigos fumantes que “fede horrores”. Concordo, mas seria injusto não citar concorrentes à altura (em minha opinião, até mais “socialmente venenosos”): os falsificados, cujo odor chega a causar náuseas. Não é exagero: já viajei por mais de sete horas ao lado de alguém que havia fumado, em seqüência, alguns destes. Foi revoltante e desesperador. Porém, lembrando um princípio de educação e empatia, de modo algum trataria mal a pessoa ao meu lado. Guardei para mim o desconforto daquela ocasião e tentei não ser muito lacônica ao ouvir suas histórias, embora uma reflexão não pudesse deixar de ocorrer: eu estaria mais feliz se existissem lugares reservados aos fumantes nos ônibus, mesmo com a proibição de fumar em seu interior. Assim, a respiração fluiria naturalmente, sem se tornar motivo de estresse.

Praias são ambientes de descanso e diversão, o refúgio após exaustivos meses de trabalho ou estudos. Todos merecem aproveitá-la da melhor forma e entendo que os fumantes tenham o desejo de fumar na praia. Mas é muito desagradável quando, após peregrinar para encontrar um espaço livre para guarda-sol e cadeiras, você se instala e alguém nas proximidades, logo depois, acende um cigarro e o vento leva a fumaça até você. Simultaneamente ao consolo de que o cigarro da pessoa já está no fim, vem à mente o padrão de consumo de cigarros: dificilmente alguém fuma só um cigarro durante um período na praia e por todo o tempo em que cigarros forem acesos, o vento provavelmente não mudará de direção. É realmente irritante, pois ao contrário de um lugar público em que você possa se afastar ou trocar de mesa, a praia tem altíssima densidade demográfica e pouco território disponível para migrações. Além disso, um novo esforço para se fixar o guarda-sol na areia seria feito e não há garantia alguma de que o novo lugar estará livre da fumaça.



Já dizia o pai do cineasta André Abujamra: “ a vida é sua, estrague-a como quiser”. Contudo, afetamos sutilmente a vida alheia a cada escolha que fazemos. Não cabe a mim questionar os motivos que levaram qualquer indivíduo a começar a fumar ou julgar os que não pararam de fumar. Da mesma forma que não fumantes não querem “sua praia invadida”, os fumantes às vezes querem apenas o direito de manter um hábito “em paz”. Cabe a cada ser vivo determinar as concessões que fará para conviver sociedade, mas cada um é dono da própria saúde e não é justo prejudicar os demais por nossos hábitos. Portanto, ao acender um cigarro, lembre-se de há mais seres vivos para inalar a fumaça ao redor.