sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Paraibando



O sol nasce mais cedo na Paraíba, mais precisamente às 4h30min em sua capital (muito próxima à Ponta do Seixas). O primeiro poeta a ser lembrado nesse texto falou do despertar.. e das flores. Não se pode dizer que não falou das flores. Geraldo Vandré soube e fez a hora, compondo, caminhando e cantando uma das músicas mais marcantes do período da ditadura militar brasileira.

Pra não dizer que ele não falou das flores
No vídeo acima, o paraibano tenta acalmar uma plateia que, sob fortes protestos, condenava a vitória dos concorrentes de Geraldo no festival de música.

Aquele que cedo acordou contou à mesma plateia que "a vida não resume a festivais". Foi censurado e exilado. Muito tempo depois, ao completar 75 anos, decidiu falar à imprensa. Mostrou a mesma capacidade de falar discretamente o que pensa e de emitir frases inteligentes, curtas e impactantes a quem entendê-las. Afirmou que não faria mais música no Brasil e que desejava compor em outro país latino.
Participação no Dossiê, da Globo News.

Assim como Vandré, o próximo poeta cursou a faculdade de direito e em sua composição mais famosa,  instiga o receptor de sua mensagem a reagir e se impor no ambiente hostil em que vive:

Versos Ítimos - Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo! Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua caga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

O terceiro paraibano ilustre também frequentou o curso de direito. Negou-se a participar da política "café com leite" e foi assassinado quando candidato à vice-presidência da república. Em sua homenagem, a capital paraibana adotou seu nome e a bandeira ganhou as cores vermelha (representando o sangue derramado) e preta (referente ao luto). A palavra "nego" (verbo "negar" em primeira pessoa, no tempo presente do indicativo) é uma alusão à recusa de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à conivência com a política "café com leite".

Outro paraibano formado em direito destacou-se como escritor. José Américo de Almeida publicou A Bagaceira. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e assim como João Pessoa, foi escalado para atuar no governo de Getúlio Vargas. Em entrevista, disse que João Pessoa não era tão eficiente no trabalho, mas era altamente eloquente ao povo que lhe via discursar.

Também contribuíram com a literatura nacional o romancista regionalista José Lins do Rêgo (autor de Menino de Engenho) e Pedro Américo, conterrâneo de José Américo de Almeida. Pedro Américo trabalhou como pintor, em obras como O Grito do Ipiranga (Independência ou Morte!) e A Batalha do Avaí. Ambas renderam-lhe fama e acusações de plágio, cuja intencionalidade é discutida, já que as pinturas da época eram bastante estereotipadas.

Outro advogado, político e integrante da Academia Brasileira de Letras, foi Assis Chateubriand, o Chatô. Era conterrâneo de João Pessoa, foi co-criador do Museu de Arte de São Paulo e trouxe a televisão ao Brasil, inaugurando a TV Tupi (primeira emissora brasileira de televisão). É considerado o Cidadão Kane brasileiro, devido ao seu comportamento polêmico e atitudes consideradas pouco éticas para obter maiores poderes.

Nas artes esteve envolvido Jackson do Pandeiro, o "rei do ritmo". José Gomes Filho teve seu nome artístico inspirado em Jack Perry, dos filmes de faroeste. "Jackson" foi sugestão de um radialista, que afirmou que a troca traria maior "sonoridade". É considerado o maior ritmista da música popular brasileira e contribuiu muito para que músicas nordestinas fossem conhecidas nacionalmente. Uma de suas canções batizou um grupo de axé e foi regravada por Lenine, em seu álbum Cité.

Não só por letras fizeram sucesso os nativos da Paraíba. Celso Monteiro Furtado tinha formação acadêmica e ideias vinculadas aos números. É considerado o maior economista brasileiro e um dos maiores intelectuais do país no século XX. Suas percepções acerca de desenvolvimento e subdesenvolvimento, relacionadas aos processos de colonização e industrialização,  incitaram a adoção de medidas intervencionistas na economia.Mais um advogado e membro da academia brasileira de letras. Mais um ministro paraibano. 

Tal qual muitos dos paraibanos aqui citados, muitos dos homens nascidos na Paraíba saíram de seu estado em busca de oportunidades. Mães e esposas paraibanas tiveram de aumentar sua jornada para suprir a ausência de seus pais, filhos, irmãos ou maridos. A migração decorrente da seca e a postura adotada pelas mulheres são relatadas na canção Paraíba masculina, do pernambucano Luiz Gonzaga.

O sol nasce para todos, mas as chuvas são escassas, trazendo aridez e temperaturas inclementes. Na terra em que o sol nasce primeiro, atrasos se perpetuam. Enquanto João Pessoa concentra boa parte dos recursos do estado, suas vizinhas, como Mamanguape (que liga Natal à João Pessoa, sendo uma vitrine da Paraíba para quem vai de uma capital à outra), são menos amparadas pelo governo. José Américo de Almeida, ao comentar a Reforma Agrária e a construção de açudes, afirmava que estas só beneficiariam os grandes proprietários. A profecia de José Américo é um retrato da política atual, mas não necessariamente a de cenários futuros.

O povo paraibano deve lembrar e se orgulhar de sua história de lutas e resistência, de grandes pensadores e criatividade. Deve saber e fazer a hora, repensar o próprio desenvolvimento, honrar a memória de quem negou uma política injusta, acertar seu ritmo, dar seu "grito do Ipiranga" e descobrir a força da "Paraíba masculina".