sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Tropeços do gigante

Há quase dez anos, em uma aula de história, o saudoso professor Neotti comentou que brasileiros brigavam entre si por futebol, quando poderiam brigar por política. Eu diria que isso está começando a acontecer.

Hoje em São Paulo, em frente ao Theatro Municipal. 

Pouco mais de vinte anos atrás, o presidente Collor sofreu impeachment e os brasileiros precisaram dar novas chances às eleições. Em nosso país, voto direto é relativamente recente e ainda estamos amadurecendo em relação ao seu poder e às suas consequências. Estamos aprendendo a escolher representantes, a nos atentar a denúncias e a decifrar as estratégias de propaganda empregadas pelos candidatos.

Quanto ao saber votar ou não... Afinal, quem sabe votar? O que define o saber votar ou não? Grau de escolaridade? Conhecimento sobre leis, direitos e deveres? Vivências nos períodos de gestões anteriores? Pergunto-me se há alguém que se sente plenamente confiante no momento de selecionar um indivíduo, com o qual o único contato são as propagandas (muito bem planejadas, incluindo crianças cantando, discursos ensaiados e todos os recursos possíveis para persuadir o eleitor) para administrar valores financeiros altíssimos, fazer concessões e contratos, traçar novos caminhos para a nação. Nação em que muitos anos serão vividos, sonhos serão batalhados e descendentes serão deixados. Consequências de uma administração de quatro anos podem ser eternas.  Será que entregaríamos nosso próprio salário ou nossa casa nas mãos de alguém que conhecêssemos tão pouco e de forma tão artificial? Por que, apesar de toda a desconfiança que a convivência em sociedade desperta, nos permitirmos confiar tão facilmente em personagens criados pelos partidos?

Personagens que muitas vezes não têm nada muito bom a oferecer, somente os consideramos uma alternativa “menos ruim” em relação ao seu oponente. E muitas de nossas convicções são estruturadas em notícias tendenciosas e no desconhecimento quanto a vários assuntos. Eu, como estudante da área da saúde, percebo o quanto ainda precisaria aprender para poder exercer minha profissão. Além disso, não tenho experiência em gestão, portanto não me sentiria segura em opinar sobre investimentos, mesmo na área da saúde. Então, o que dizer sobre economia, na qual não tenho nem parte de uma formação acadêmica? Vou confiar nas análises apresentada em jornais e revistas? Se há divergências até entre meus professores da área médica, apesar de tantos artigos publicados, diretrizes e evidências, como não haveriam entre especialistas da economia, quanto a situações atuais, anteriores e até previsões para os próximos anos? O mesmo se aplica à educação, infra-estrutura, segurança pública e tantos outros setores a serem trabalhados pelos governantes.

Ademais, não tenho experiência no exercício de um cargo político. Não sei o que é lidar com a pressão da imprensa ou de apelos populares, conter greves ou negociar com colegas parlamentares. Como posso criticar a atuação de um parlamentar? Posso me pautar em leis e no pouco de informações que chegaram a mim quanto aos seus direitos e deveres. Porém, tudo isso é ínfimo diante de tudo o que compõe a realidade política. Somos todos passíveis de manipulação? Acredito que sim.

Creio que seja muita presunção afirmar que outra pessoa “não sabe votar” só porque seu posicionamento nas urnas foi diferente do meu. Não julgo o medo de perder benefícios adquiridos, pois qualquer um teria medo de perder aquilo que melhorou sua qualidade de vida. Também não critico a rejeição de quem discordou de medidas do governo, especialmente aquelas relacionadas à sua atuação profissional. Todos têm o direito de escolher o que parecer melhor para si. Porém, ao “votar por conveniência”, é incoerente condenar quem também “vota por conveniência”, mas prefere outro candidato.

Apesar de tantos questionamentos, sinto-me otimista. Como disse no começo do texto, os brasileiros estão mais interessados em política. Para mim, o "gigante acordou" sim, mesmo que tenha preferido ficar em casa por medo do confronto com a polícia, ou do encontro com manifestantes mais "enérgicos". Ele só está um pouco sonolento e começando a processar a realidade ao seu redor. É ainda muito inexperiente para tomar suas decisões de forma mais sábia e dará alguns tropeços até estabelecer um rumo mais esclarecido e confiante. Mas está desperto, disposto e barulhento, como um bebê que acaba de acordar.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

"A arte da conversa", por Doug Savage.

Quanto tempo!?

Pois é. Eis que me deparo com quadrinhos super criativos da série "Art of Talk", do Savage Chickens, do cartunista Doug Savage.


Recomendo os outros itens da série e uma exploração mais aprofundada do site. 

Obrigada pela atenção! Boa semana!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Paraibando



O sol nasce mais cedo na Paraíba, mais precisamente às 4h30min em sua capital (muito próxima à Ponta do Seixas). O primeiro poeta a ser lembrado nesse texto falou do despertar.. e das flores. Não se pode dizer que não falou das flores. Geraldo Vandré soube e fez a hora, compondo, caminhando e cantando uma das músicas mais marcantes do período da ditadura militar brasileira.

Pra não dizer que ele não falou das flores
No vídeo acima, o paraibano tenta acalmar uma plateia que, sob fortes protestos, condenava a vitória dos concorrentes de Geraldo no festival de música.

Aquele que cedo acordou contou à mesma plateia que "a vida não resume a festivais". Foi censurado e exilado. Muito tempo depois, ao completar 75 anos, decidiu falar à imprensa. Mostrou a mesma capacidade de falar discretamente o que pensa e de emitir frases inteligentes, curtas e impactantes a quem entendê-las. Afirmou que não faria mais música no Brasil e que desejava compor em outro país latino.
Participação no Dossiê, da Globo News.

Assim como Vandré, o próximo poeta cursou a faculdade de direito e em sua composição mais famosa,  instiga o receptor de sua mensagem a reagir e se impor no ambiente hostil em que vive:

Versos Ítimos - Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo! Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua caga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

O terceiro paraibano ilustre também frequentou o curso de direito. Negou-se a participar da política "café com leite" e foi assassinado quando candidato à vice-presidência da república. Em sua homenagem, a capital paraibana adotou seu nome e a bandeira ganhou as cores vermelha (representando o sangue derramado) e preta (referente ao luto). A palavra "nego" (verbo "negar" em primeira pessoa, no tempo presente do indicativo) é uma alusão à recusa de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à conivência com a política "café com leite".

Outro paraibano formado em direito destacou-se como escritor. José Américo de Almeida publicou A Bagaceira. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e assim como João Pessoa, foi escalado para atuar no governo de Getúlio Vargas. Em entrevista, disse que João Pessoa não era tão eficiente no trabalho, mas era altamente eloquente ao povo que lhe via discursar.

Também contribuíram com a literatura nacional o romancista regionalista José Lins do Rêgo (autor de Menino de Engenho) e Pedro Américo, conterrâneo de José Américo de Almeida. Pedro Américo trabalhou como pintor, em obras como O Grito do Ipiranga (Independência ou Morte!) e A Batalha do Avaí. Ambas renderam-lhe fama e acusações de plágio, cuja intencionalidade é discutida, já que as pinturas da época eram bastante estereotipadas.

Outro advogado, político e integrante da Academia Brasileira de Letras, foi Assis Chateubriand, o Chatô. Era conterrâneo de João Pessoa, foi co-criador do Museu de Arte de São Paulo e trouxe a televisão ao Brasil, inaugurando a TV Tupi (primeira emissora brasileira de televisão). É considerado o Cidadão Kane brasileiro, devido ao seu comportamento polêmico e atitudes consideradas pouco éticas para obter maiores poderes.

Nas artes esteve envolvido Jackson do Pandeiro, o "rei do ritmo". José Gomes Filho teve seu nome artístico inspirado em Jack Perry, dos filmes de faroeste. "Jackson" foi sugestão de um radialista, que afirmou que a troca traria maior "sonoridade". É considerado o maior ritmista da música popular brasileira e contribuiu muito para que músicas nordestinas fossem conhecidas nacionalmente. Uma de suas canções batizou um grupo de axé e foi regravada por Lenine, em seu álbum Cité.

Não só por letras fizeram sucesso os nativos da Paraíba. Celso Monteiro Furtado tinha formação acadêmica e ideias vinculadas aos números. É considerado o maior economista brasileiro e um dos maiores intelectuais do país no século XX. Suas percepções acerca de desenvolvimento e subdesenvolvimento, relacionadas aos processos de colonização e industrialização,  incitaram a adoção de medidas intervencionistas na economia.Mais um advogado e membro da academia brasileira de letras. Mais um ministro paraibano. 

Tal qual muitos dos paraibanos aqui citados, muitos dos homens nascidos na Paraíba saíram de seu estado em busca de oportunidades. Mães e esposas paraibanas tiveram de aumentar sua jornada para suprir a ausência de seus pais, filhos, irmãos ou maridos. A migração decorrente da seca e a postura adotada pelas mulheres são relatadas na canção Paraíba masculina, do pernambucano Luiz Gonzaga.

O sol nasce para todos, mas as chuvas são escassas, trazendo aridez e temperaturas inclementes. Na terra em que o sol nasce primeiro, atrasos se perpetuam. Enquanto João Pessoa concentra boa parte dos recursos do estado, suas vizinhas, como Mamanguape (que liga Natal à João Pessoa, sendo uma vitrine da Paraíba para quem vai de uma capital à outra), são menos amparadas pelo governo. José Américo de Almeida, ao comentar a Reforma Agrária e a construção de açudes, afirmava que estas só beneficiariam os grandes proprietários. A profecia de José Américo é um retrato da política atual, mas não necessariamente a de cenários futuros.

O povo paraibano deve lembrar e se orgulhar de sua história de lutas e resistência, de grandes pensadores e criatividade. Deve saber e fazer a hora, repensar o próprio desenvolvimento, honrar a memória de quem negou uma política injusta, acertar seu ritmo, dar seu "grito do Ipiranga" e descobrir a força da "Paraíba masculina".




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Aos mestres

Educa..dor! Sim, não poderia haver sufixo melhor para o cargo, no momento em que vivemos. Faltam salários decentes, planos de carreira, incentivos e o devido reconhecimento aos profissionais da educação. Muitas vezes, há incompreensão e descaso por parte de alunos e pais desses alunos. O professor fica desamparado, sem apoio da diretoria e de políticas mais justas.


Ainda assim, os mestres não desistem e continuam a desenvolver soluções para os problemas do cotidiano.


Permanecem inventivos, fascinados pelo conhecimento e por novas maneiras de transmiti-lo aos seus discípulos. Mesmo que poucos estejam interessados ou demonstrem fé no conteúdo explanado e em sua existência no mundo em que vivem. 

Nem sempre é fácil crer nos ciclos, moléculas, histórias, reações e movimentos de partículas ou corpos extensos. O aluno pode apresentar certo ceticismo, como provavelmente os mestres um dia fizeram. Passado o período de "catequização" do aluno, é preciso encontrar meios de fazê-lo assimilar e memorizar o conteúdo. Aí entram os inesquecíveis macetes, exemplos e brincadeiras, que deixam o conteúdo mais atraente, divertido, simples e crível. Os mais habilidosos nessa arte são recrutados para missões altamente complexas, como integrar equipes de regate em cursinhos e heroicamente fazerem você atravessar as barreiras dos vestibulares.


Há os motivadores, que despertam nos alunos a autoconfiança e a coragem de batalhar por seus sonhos. Alguns até os ensinam a escrever o próprio destino, incorporando uma nova temática às suas vidas.


Outros são capazes de  mudar o rumo de uma nação e inspirar jovens de origens e dificuldades semelhantes, em todo o mundo, a conseguirem a própria ascensão. 








Os docentes, além de bons palestrantes (e um pouco artistas), devem ficar atentos às características e necessidades de seu público. Notar diferenças e construir novas abordagens, para alunos mais "niilistas", disléxicos ou excepcionais. É preciso paciência e sensibilidade... inclusive para de vez em quando fugir um pouco do assunto da aula e falar sobre o que os alunos querem ouvir.


Mas muito já foi dito, acabou-se o nosso intervalo. É hora de deixar o mestre aproveitar o pouco tempo livre do qual dispõe e cuidar de seus afazeres. Feliz dia do professor!

domingo, 14 de outubro de 2012

Carpinteiros do Universo

Tanto a se fazer e viver.. 

Tanto a ser dito, divulgado, denunciado... Votado, vetado, extirpado.
Mundo carente de consertos, ajuda, disposição para fazer o que qualquer um poderia, mas poucos fazem. Coragem de enfrentar o sistema e os que nele se estabeleceram e recusam-se a sair, dando a outros a oportunidade de tentar fazer melhor. Pensar em tudo o que deveria ser mudado (e no quão extenuante seria causar essas mudanças) traz um desânimo..


Complicado abandonar a rotina e a zona de conforto. Há sempre o medo da sobrecarga e do não cumprimento de obrigações estabelecidas... Vem daí a fuga da formação de vínculos com grupos de pessoas que, às vezes, têm as mesmas vontades e ideais que você. 

Ajudar requer esforço, tempo, tolerância. Leva à frustração com uma sociedade muitas vezes despreocupada, egoísta e insensível quanto às questões que para você não devem ser ignoradas. Surge a decepção com outros seres humanos que contribuem com o aumento do problema, abandonando e maltratando animais, jogando lixo em locais inadequados, violentando mulheres e crianças ou agindo de qualquer modo que piore o que seu projeto tenta combater. Há o estresse de conviver com problemas, além daqueles já existentes em sua moradia ou atividade profissional. Há também os desafios da convivência com seus colegas de projeto e divergências de opiniões.

O dinheiro talvez não compre a felicidade, mas é fundamental para suprir as necessidades das instituições. Na maioria dos casos, é preciso dinheiro para sustentar a própria gentileza e a solidariedade aos demais. O dinheiro compra (e aluga) espaço, funcionários, energia elétrica, água.. e tudo o que um abrigo (clínica, escola ou qualquer projeto social) exige. Na falta dele, vêm os pedidos de doações, nem sempre bem recebidos/compreendidos pelo público. 

Mas nem tudo está perdido! Se você deseja contribuir com um mundo melhor, sem "levá-lo nas costas", pode tomar atitudes simples e bastante relevantes:

Doe sangue e cadastre-se como doador(a) de medula óssea. Há baixíssima possibilidade de compatibilidade entre pessoas de diferentes famílias.. portanto, se for descoberta compatibilidade entre você e alguém à espera da doação, não recuse o procedimento: submeta-se e ajude. Dificilmente outra pessoa poderá substitui-lo(a) nessa situação.




Ajude instituições, principalmente as menores, aí de sua cidade. Se preferir não doar dinheiro diretamente, forneça materiais (alimentos, produtos de limpeza e higiene pessoal, roupas, etc). Incentive aqueles que têm coragem e disposição para aquilo que deveríamos fazer. Vale ressaltar que, sem doações, tempo e trabalho dos voluntários não serão suficientes para manter a atividade do grupo (causando seu fim e o agravamento de problemas sociais e ambientais amenizados pelo projeto).



A culpa das mazelas do mundo pode não ser diretamente nossa. Mas o interesse pelas soluções, a busca por informações e a tomada de atitudes mais conscientes e proativas são deveres de todo cidadão. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A César o que é de César


Na semana em que o texto "Por quem os sinos dobram?" comemora um ano de aniversário, o jornal Zero Hora divulga a perda do cargo e a condenação à prisão do reitor Antonio César Gonçalvez Borges.  










Marcada em laranja, a pessoa que vos fala, há mais ou menos um ano na reitoria ocupada.


Não posso dizer que a ocupação surtiu tanto efeito. Não sei nem se conseguimos chamar muita atenção para a causa. Mas o que foi publicado hoje responde as críticas da época: não estávamos errados.





terça-feira, 22 de maio de 2012

SiCKO Killer


Michael Moore mais uma vez põe o dedo na ferida dos EUA: sai da sala de espera e faz um exame no sistema de saúde do país.  

Na produção indicada ao Oscar de melhor documentário em 2006, ironia e sarcasmo, sem doses homeopáticas, são parte do tratamento dado aos planos de saúde estadunidenses. Os serviços públicos não ficam imunes e são comparadas amostras oriundas do Canadá, da Inglaterra, da França e de Cuba. 

Ao analisar os materiais e fazer o diagnóstico, o protagonista se mostra sensibilizado pela causa das pessoas com quem se depara e incrédulo com as discrepâncias entre sistemas de saúde pública nos  países que visita. Entre os depoimentos coletados está o de um político que receita o voto inteligente, por parte dos mais necessitados, como profilaxia contras as patologias crônicas sociais e administrativas. 



O filme é um convite à reflexão e às mudanças, preferencialmente antes de ficarmos presos à maca e não termos mais forças para remediar a situação.

Música que rendeu o trocadilho do título da postagem acima:
Psycho Killer, da nova iorquina Talking Heads:
http://www.youtube.com/watch?v=l5zFsy9VIdM